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sexta-feira, 21 de junho de 2013

O PRAZER É AGORA














         Se arrependeu de ter emprestado seus dólares para  Rolembergue. Confirmado estava. Brasileiro, povinho enrolado. Francês não gosta de brasileiros, com razão. Zuadentos, metidos a gás com água e  mal-educados. Olhava o quadro de anúncios  n`Aliança Francesa. Só por hábito, porque não queria mais ajudar ninguém, depois de lhe terem roubado tudo em uma festa que dera. Perfumes, roupas, sapatos que ganhava das lojas onde levava turistas. Rolembergue ouvira falar. Chamam-no Consul Particular do Brasil. Desconfiavam até. O cara é do DOPS, quem não vê? Está sempre discutindo política, para descobrir comunistas, esta, uma das táticas do DOPS. Infiltração.  No Brasil está tudo minado, há informantes até nas latrinas, a gente deve ter cuidado. Não é bolsista, não é rico, quem o sustenta? Não é exilado político, como Valdir, Juscelino  e Arraes. É Alcaguete, com certeza, dedo duro. Diz, com orgulho, ter criado o termo racista para os que vieram a Paris, sem bolsa de estudos, e que foi o primeiro racista a chegar. Quem viu?  Nossa ficha no DOPS deve estar mais suja do que pau de galinheiro. Não porra, ele é mesmo um cara retado. Veio praqui sozinho. Não esperou a “gloriosa”  intervir, se picou logo. Quem espera tempo ruim é lagedo. Ou jegue. Nordestino é gente? Você é do Nordeste, não é? Não, sou do Leste. Do Leste? Onde é o Leste? A Bahia fica no Leste do Brasil. Ah, então eu também sou do Leste, porque sou de Sergipe. É. O quintal da Bahia. Não, o jardim.  Queria que você me conseguisse um Studio. Chegando agora,  não falo francês, não conheço nada. Não queria incomodar, mas. Prometi não ajudar mais ninguém. Brasileiro só quer  levar vantagem. Quando consegue o que quer,  adeus. Desculpe, mas nem todos são iguais, você não deve generalizar. Esta é minha experiência com brasileiros. Estou te pedindo um favor, em nome da  cordialidade brasileira. Tá legal, só porque  você é sergipano, vou dar uma ajudinha, tenho alguns amigos lá. Verdade?  Diga  um, talvez conheça. Rolembergue. Rolembergue sou eu. Abraços, chorôrô e abraços. Terra, apenas mantissa do universo. Quanto orgulho, o terráquo se acha o rei da cocada preta. Não passam de um cisco no universo intergaláctico.   Guardara por tanto tempo seu dinheiro para depois, como um palerma, entregar a quem não precisa. Alguns têm o dom de enganar, por isso dominam.  Filho, neto, bisneto, trineto ou lá que o seja de coronéis. Não precisa do dinheiro de quem o ganha com sacrifício e  suor de seu corpo. Puro prazer de enganar, educado para dominar, outros para obedecer.  Deus assim dispôs. Necas de pagamento. O valor se perdeu na vala do esquecimento, se diluiu no tempo, prescrito para cobrança.  Obrigação o tempo apaga, não a lembrança. Sei que  me deve, saberá ele?   É noite em Paris, precisa dormir cedo. Pegar o trampo nas Messageries Maritimes, limpar a bosta para o francês cagar novamente. Rolembergue não o deixa dormir, não é ele que vai limpar bosta, filhinho de papai, mauricinho. Quer saber de sua vida. Seu primeiro amor. Do  internato para colégio público. Noites doces com a presença dela. O latim do professor Petrônio aguçava a curiosidade da amada, seu melhor aluno.  Bela Trifena, sed mulier, quae mulier, miluinum genus. Se quiseres sofrimento ama. Lembra-te do que diz  Epicuro. Se  não és senhor do  amanhã, por que adiar  o momento de gozar o prazer possível? Consumimos nossa vida a esperar e morremos empenhados nessa espera do prazer. O prazer é agora. Amanhã serás verme, ossos e cinzas que alimentarão as ervas, alimento de pássaros,  insetos, vertebrados e invertebrados, mamíferos e outros bichos,   até o gás que tu cozinhas, e o petróleo que move o mundo. Que mistério a vida nos esconde? Não queiras saber, só do agora és senhor. Goza-o com todas tuas forças, nunc et semper, como bem aconselhava Gregório de Matos:
Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata a toda ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada.

Ó não aguardes, que a madura idade,
Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.


Continuação no livro Noite em Paris, breve nas livrarias.

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