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segunda-feira, 2 de outubro de 2017

EU SUNT STEPHEN PADDOCK

                               










                                                       
                                                       Sim. Sou Stephen Paddock. Que mal fiz eu, perto das atrocidades do mundo? Milhões choram menos de uma centena de mortos e alguns feridos, esquecidos dos milhões mortos pelas guerras, que nada mais são do que terrorismo de Estado. Não, não é para justificar meus atos, nem quero que me perdoem. Apenas, vejam. Não sou melhor nem pior de quem, hoje, me apedreja. Saibam. Nunca  eles vão te contar a verdade. Mentem dizendo que me matei. Eles dizem isto com todos. Matam para silenciar as razões de nosso ato. Querem manter a imagem de um país uno, sem divergência. Anos ouvindo. Somos a maior nação e nossa forma de vida, a melhor. E em nome disso, mandam-nos à guerra matar irmãos. Quantos morrem, diariamente,  no mundo por nossas mãos? Um dia recebi um chamado. Uma voz nunca antes ouvista. E me preparei para servir à aquela causa. Inchalá. Deste local privilegiado eu vejo toda a orgia que se perpetra lá embaixo. Ah humanidade podre, enquanto isto, milhões de irmãos morrem de fome, sede e frio. Nesta hora ninguém se lembra de Deus, mas daqui a pouco todos gritarão seu nome. Canto e risos serão gritos e gemidos. Ouvirá o Senhor, Deus é Grande, seus gritos? Logo, logo o FBI dirá: Um ataque isolado, de um louco, nada a ver com Estado Islâmico. Até apelido. E como eles explicam tantas armas, tanto equipamento? Lobo solitário, só rindo. Será o povo imbecil para acreditar neles? Breve, o mundo falará de mim, mesmo repetindo as mentiras oficiais, falarão. Outros irão mais longe. Indagarão, refletirão. Adeus vidinha medíocre de jogatinas e mesmice. Chorem, medíocres, mas agradeçam. Alguém os está levando à reflexão.

sexta-feira, 28 de julho de 2017
















                                                   
                                                         
                                                          As pernas dela estavam abertas, estiradas. Seus cabelos espalhados sobre o lençol. As dele dobradas, encolhidas, quase um feto. O que se passara ali? Ninguém saberá. Céus, testemunhas mudas, nada revelam. Passado, presente, futuro, escritos em língua indecifrável. Nus. Não me atrevi a olhar a nudez da morte de jovens inda virgens nos mistérios da vida. Que bela, disse, pudicamente. Flor desfeita, amar amargo. Tanta carne exposta, açougues vazios. As vitrines de Amesterdã estão, hoje, em toda parte, pessoas vendidas sob nossos olhos. Fingimos não ver. Dois corpos quase castos. Ali, na cama fria do hotel. Buscavam o amor. Que luz divina cortou-lhes o sopro?  Oh, Céus, implacáveis! Que fim macabro escrevestes nestes livros? Por quê, oh céus, permitis o murchar da flor, sem que venha o fruto? Tu decides, assim? Sem tempo de madurar o fruto? Para que os trouxestes à terra, então. Melhor que os tivessem deixado nos confins do infinito. Não quereis, oh Céus, que uns paguem pelo mal que outros fazem. Que injusto que seria. Isto mesmo,  quereis vós? Quão insaciáveis sois, quão sanguinários. Quanto sacrifício exigis de nós. Impondes fé e castigo para quem não crer. Dizei-me, oh Céus, não haverá um entre vós que se rebelará contra esta tirania? Assembleia terrífica, que guardais para os homens? Trabalho e castigo, para ficardes no ócio? Para isto os criastes? Não sois vós, obra de nosso medo? 
                                   Terno quadro de natureza morta. Terrível paz, se se pode chamar de paz a morte. Esta intrujã, enganadora.
                               Manhã nefasta.Teria eu, visto o casal entrar? Quantos por noite? Quantos gemidos? Quantos,  ali,  traindo alguém? Quantos, vendendo o corpo? Hoje, mulher e homem vendem seus corpos. Acha-se normal. Vai longe o tempo da prostituição sagrada. Sisudos sacerdotes de Ishtar, bem como santificados bispos da igreja, tomam das mulheres solteiras o dinheiro pago pelo ritual. Para crescer os meios são santos. Ritos? Que amor selvagem  se pratica, hoje,  nos hotéis, os novos santuários do amor?
                                 
                                    
                             
                                      
                                       

quinta-feira, 18 de maio de 2017























Horus vinha não se sabe donde, passava por um restaurante universitário. Não era o restaurante da Faculdade da Rua D`Assas, mais se assemelhava ao velho Restaurante Universítário do Corredor da Vitória, nos idos de 1964, quando fizera vestibular e frequentava vez por outra aquele comedouro, povoado de figuras folckloricas, como Wilson o eterno estudante que já passara por diversos cursos, sem se fixar nenhum ou como Graciliano,  poeta nascido em  Ubaitaba que, depois do almoço, subia na mesa e recitava seus versos. Neste momento sobrava comida  e se viam bandejas cheias, frutas e nosso conhecido romeu e julieta. Como Graciliano, subiu numa mesa e passou a andar por cima delas e embora tivesse vontade de pegar uma daquelas guloseimas, se conteve, com medo da repreensão do bedel. Havia uma mesa, com sucos gelados, enrolados em saquinhos plásticos, como um sorvete  congelado. Pegou um e começou a morder o plástico, quando viu vindo um homem negro,  visto antes, na entrada.  Não tinha mãos,  cotó de dois braços, logo percebeu a reclamação no ar. Perguntou,  apontando o gelado.  Posso?
Nada lhe respondeu e armou os bracinhos  para lhe socar. Era um neguim careca de olhos muito vivos, vestido de branco como os açougueiros. Quando  tentou lhe socar Horus  se protegeu atrás de um vaso de metal de onde retirara o geladinho. Tentou a segunda vez,  Horus o  encarou com seus olhos  de falcão
Abriu a boca, pôs as mãos em concha e emitiu, como Seth, um sopro. Uma torrente impetuosa saiu de sua garganta e sacudiu o homezinho a metros de distância. Ele começou a fazer sua confissão como se estivesse diante da Deusa pesadeira de almas:
 “Eu não amaldiçoei a Deus”, e começou a derreter-se, como  o sorvete no vento; “Não tenho me oposto à minha família e parentes”, as pernas se desfazem; “Eu não cometi crime”, os bracitos se despegam do tronco;  “Eu não cometi adultério”, esvai-se até a cintura; “Eu não roubei”, o tronco se desmilingue; “Eu não proferi mentiras”, é a vez do pescoço;  “Eu não defraudei o homem humilde de sua propriedade” Some-lhe a cabeça, os olhos, ouvidos e boca, num gemido, o último dos moribundos. Mistérios da vida. Vozes, vozes invadem o ar. Ouço, aturdido. Por quê temer a morte?
 É  o Requiem  de Nunes Garcia. Longe nas Minas Gerais fui parar. Vejo cenas assustadoras, aquelas pintadas por Bosch. Corpos disformes, braços voando, cabeças pendidas, bocas e bicos de animais gotejando sangue,  almas penadas, máquinas fantástica vomitando gente, freiras orando sob olhar de uma coruja diante de uma madre de focinho de porco. Anjos, demônios, homens e bichos se igualando, ora corpo de bicho, ora corpo humano. Volto a Capela, na igreja os restos mortais de Joaquim Machado. No Monte braços, pernas, velas votivas. E na Capela da Santa Cruz do  Monte em Mairi. Hoje ainda sonho com seus ossos e grutas. Será por isto que tenho medo de altura? Longe se vai o tempo menino. Velhas rezadeiras, terço na mão, xale na cabeça rezam em voz alta. Benditos e jaculatórias. Esmagado fico. Hora de acordar, não quero ver o homenzinho se derretendo. Um filete d´água saindo do que era seu corpo.  Formará um rio? Água, sonho do nordestino, mesmo com sacrifício humano. Não comiam os tupis seus adversários para adquirir sua coragem? Também podemos beber d´om-água.