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sábado, 26 de junho de 2010

O BANCO, O CHÃO, O SONO E O SONHO








Meio-dia. Ôh sole quente. Buracos na estrada.  Enfim, cheguei. Mairi, Monte Alegre da Bahia. Cinquenta léguas de Salvador, por Capim Grosso ou Baixa Grande, por onde foi. Verás, verão. Intranquilo desce, tranquila cidade. Curiosos observam.  Abram as jinelas, belas donzelas, estou chegando.
Meia-noite. Gare du Nord. Chegara afinal. Retirar mala, berimbau, pandeiro, violão e bugingangas. Brigitte, seu  papagaio não veio. Complicações na duana. Frio d´outono no seu rosto, folhas sob os pés, caídas.. Noite em Paris, primeira. Saudades. Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá.
Achou a casa do tio. A benção, Deus te abençoe, abraços, beijos. Como está comadre? Compadre tá bem? Procurar Costinha, amigo do pai.  Costinha Jururu, (gostava do apelido, ele mesmo se apelicou, preito ao jurubeba, vinho predileto). A carta do pai. Que o apresentasse  à cidade. Orgulho de ter sido o escolhdo.  Estão vendo?  A quem seu pai recomendou?  A Costinha, como Pelé fala na terceira pessoa,  não  aos bacanas  daqui.  Jururu não tem onde cair morto, mas tem amigo na capital. A todos mostrava o escrito. Com prazer e denodo pegava-o pelo braço, apresentando-o  a um e outro. Filho da  terra, de nossa  gente, da gema, dos primeiros habitantes. Sobrinho-neto do Coronel Francelino de Almeida, homem rico, morreu pobre, pedindo esmolas, por não roubar, ao contrário de muita gente boa  nascida pobre e hoje rica, sabe Deus como. Constrangedor discurso, fazer o quê?   Jeito todo seu.
Gare  du Nord.  Saint-Lazare?   Busca de hotel. Luzes na noite,  frio gélido  na  cara. Na minha cara?  Luso andar  em terras de  Luízes. Andar brasileiro na terra dos francos. Olhar moreno na blondice franca. Fumacê nos bares e cafés. Cachimbos,  cigarros, charutos, talvez diamba. O amargo da cerveja na garganta. Na telê, perdido na bruma,  montado em cavalo branco, esganando-se por  suplantar o burburinho, Adamo?, Becaud? Quem canta assim, danadamente?
E o soldado Paulo Cobra, que não é Norato, mas cutibóia, como o cipó,  (Era Koba mesmo. Não, não  me chamem de estalinista, Jaldo Caribé, hoje no reino da paz, - prefiro o inferno daqui -, me fez este alerta), arranjou-lhe a primeira questão: Um desquite, (ainda não existia divórcio). O casamento válido só se dissolve pela morte de um dos cônjuges, dizia a lei;  Não separe o homem o que Deus uniu,  berra a Igreja execrando  o divórcio. Criado o casamento,  arengava, opondo-se ao decreto 181  de  janeiro 24 de 1890: só Deus pode unir o homem à mulher.  Rui Barbosa vangloria-se de ter divergido do mestre D. Macedo Costa: Porque não era aturdindo as consciências com o  estrépito de improvisos violentos que havíamos de estabelecer a liberdade  religiosa:  - era pelo contrário, inquietando o menos possível as almas, e  poupando a liberdade de cultos que desejávamos firmar na máxima plenitude  e com a maior solidez, ahostilidade das tradições crentes, em um país  educado pelo cristianismo e pela superstição. Temperança,  equilibrio de Ruy;  imposição,  autoritarismo eclesial, no Império e na República, não permite o casamento religioso sem o civil. Sem direito de escolha, proibir dupla núpcias.  Religião, religião.
Com zelo e dengo um  casal criava sua única filha. Escolheu, escolheu caiu num  jovem vistoso, elegante, um pouco bandavoou mas, casou-se. Trinta dias depois, volta, chorosa e arrependida à casa dos pais. Ainda estou virgem mamãe, ainda sou moça papai. O velho pegou do revolver, da peixeira e do facão, foi encontrar o genro. Seu vagabundo, seu xibungo descarado. Que houve meu querido sogro? Você ainda me pergunta o que houve, com esta cara sem vergonha? Então você casa com minha filha e depois de um mês ela continua virgem? Hehehe, ahahahaha. Agora entendi. Como foi que eu casei com sua filha? Você casou no religioso e no  civil,  seu moleque. Pois é, meu querido sogro,  estou primeiro no religioso. Ai, meu deus, gritou o sogro, que minha velha está me devendo mais de trinta anos de cu. Hoje, depois de ter reencontrado o oficial Mauro Gelado,  no fórum em Mairi, moreno como o nome,  frio como uma talha, razão da alcunha,  tenho cá minhas dúvidas. Quem realmente o apresentou ao primeiro cliente?  Mauro, que não é Terenciano, nem poeta, nem gramático,  e única coisa que escrevia eram certidões nos mandados, sim, lhe trouxe o desquite  de João Calixto, um velho senhor casado com mulher mais jovem, que o traía, contam, com um motorista. Ficava mais na fazenda, deixando-a na rua pela educação dos filhos. Vinha à cidade trazer  leite e mantimentos ou quando lhe subia o fogo, normalmente baixo, pela calmaria própria da idade, pois apesar da fanfarronice de alguns idosos, que dá uma toda noite na sua velha, todos saem que aquilo mente como um cachorro doente. Posto que a bicha fica enzamboada, nem sobe, nem desce de vez, fica numa espécie de limbo, em estado indefinido, nem sólido, nem líquido, nem gasozo. Um dia, de supetão, pelos fundos da casa, deu de cara com o amante.  Correu a espingarda, sem tempo de atirar.  Sedutor, espavorido, fugindo, (seduzido?),  chinelos, chapéu  deixados, o crime deixa rastro. Desquite litigioso, queria, desmascarada, ver a traidora. Como se todos não soubessem. O marido, sim, o derradeiro a saber. Poderia cantar a canção:            
 Mas agora eu sei
O que aconteceu
Quem sabe menos das coisas
Sabe muito mais que eu 
Traição  de estapafúrdias soluções. Portugal, 1715, Dom José assina lei. Ajudar maridos traídos descobrirem sua cornice. Quem soubesse de uma traição deveria denunciar o chifrador, colocando  chifres  em sua porta. Oferenda ao chifrudo? O coito em cama alheia  sempre foi, em qualquer tempo e lugar, crime gravíssimo, quase sempre punido com a morte, a mulher, claro,  porque na maioria das vezes o sedutor  nada sofria. A bela Costanza, não muito constante a Bonarelli, o maridão, amou Bernini e seu irmão Luigi, pérfida in bis,  e foi desfigurada a navalhada, a mando do escultor, sob o beneplácito de Matteo Barberini, ou Papa Urbano VIII, de cuja amizade um tanto quanto suspeita, gozava o artista. (será que eram amantes? Papas existiram de todo tipo, até mulher vestida de homem. Traveco, o Ronaldinho iria adorar.). Divino artista, homem demônio. O que não faz um cara  por uma chiranha!
No século XI, a infiel  era  assassinada  na praça, perante uma multidão ávida de sangue e vingança, como inda hoje se vê entre alguns  islâmicos. Tanto rigor não corrigiu o humano. Será mesmo o coito extraconjugal mais gostoso do que o papai e mamãe de cada dia? Esquimós e índios das américas mais sábios e felizes, sem saber o que é cornice,  até ofereciam suas mulheres como prova de boa hospitalidade. Fazem sua praxis o ditado, lavou tá nova. Mundo doido. Imundo. Louco mundo. Em  Hong Kong, a mulher traída pode matar seu marido desde que, com as próprias mãos, missão quase impossível, quando se pode matar de qualquer forma a amante do marido. Que discriminação!
Na Cité Universitaire. 7 L, Boulevard Jourdan, La Maison du Brésil de Lucio Costa e Corbusier .A carta do português ao amigo Quertezer (pronuncie Quertezer, oxítona. Aprenda. Na língua lusa as palavras terminadas em i (y), l, r, u e z, se não houver acento antes, são sempre oxítonas, esqueçamos esta palhaçada de imitar a pronúncia anglo-americana):  Leva ele muita coisa na cabeça e mais no coração. Merece sua ajuda.  Tira das vistas o papel, diz ao retirante. Paris não é  lugar pra gente sem dinheiro. Volte logo, se não quiser morrer de fome, aqui não é o  Brasil, sentenciou. Mal sabia que 4 anos depois, em pleno Maio de 68,  ali retornaria, desta vez  para ocupar e expulsar daquela Casa  os estudantes bolsistas,  filhinhos de papai e afilhados de políticos. Sem o menor conhecimento do sistema de operação telefônica, tomou posse da portaria. Tudo tão confuso, como a própria revolução de jovens que não sabiam o que queriam, sabendo apenas o que não queriam. A sociedade burguesa que dominava França e Europa.
KaRa de fome e sorriso nos olhos de seu povo. E língua esfarrapada em seu ouvido. A voz do sertão. Como o canto do assum-preto, negro como os cabelos d´Iracema, a virgem dos lábios de mel. O sábado menino.  Comprar rapadura, dois´tões. Sacos. Sacos de farinha, punhado apanhado, misturar na boca. Ô m´nin, danado. O olhar curioso dos roçeiros. Seu traje, seu trato. Uns veem o filho da terra, outro a lembrar-lhe  parentesco, mesmo por trás da serra. Que buscas tu, neste desertão? Voz partida, perdida a cara.
No cartório de Aloisio Leal, (que não se mostrará tão leal quanto o nome diz, tu verás), o dialogo da iniciação nas coisas da justiça. A sarará grita, esperneia, arrasa.
-  Padinho, o sinhô num pode impedir  que eu receba o que é meu. Num sou mais u´a criança. O sinhô só me tem prejudicado o tempo todo. Quero tomar conta do  meu. O escrivão rebate:
 - Sujeitinha mal agradecida. Devia lembrar-se do quanto eu fiz por você.
A sarará. Mulher. Mulher-mulher.
- Sujeitinha?  E o sinhô?  Um ladrão. Covarde. Correu da polícia  federal. Comunista, cagão.  Se ajoelhou  nos pés do capitão. Chorão. O inventaro  é meu, a terra é minha. Só quero o que é meu. O sinhô num pode ficar com a terra toda vida, só porque inventou de ser ventariante. 


Continuação no livro Noite em Paris, breve nas livrarias.              

(Publicado sob o pseudonimo de El Carmo na Coletânea PALAVRA POR PALAVRA, Ed. Art-CONTEMP, Salvador, 1992) 

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