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ELA SE CHAMA LILI

                                   De pai Cirilo e mãe Jurema nasceu Lili. Azuis terríveis, os olhos, iria, quem diria, correr  mundo, denominada, a mais bonita e mais rica do mundo da moda. Não muito longe, ajudava o pai, sapateiro, seleiro e curtidor, entre couro, casca d´angico, sovelas e outros apetrechos, ao aroma de couro curtindo no anoque ou molhado na selha. Que sonhos acalenta uma jovem, num lugar onde nem jornal nem rádio chegavam? Lia titubeante alguns números do Almanach Bertrand e do Almanaque do Pensamento que o pai comprava a cada ano e era, assim, considerado, junto com Zé de Nazaré os sabidos de Capela, os malucos, porém malungos todos. 
                               Quico saiu às 10 horas e nunca chegou até agora, com a comida. Melhor  matar uns passarim, enquanto ele vem, num tem muito, mata o que achar, até garrincha. Pardais tem demais, quase não tem carne, mas o camarão também não é pequeno? 
                              Peguei um chih pha e limpei minha boca, minhas mãos.  pues, estant allí a la porta, la tafarra se´em calfà, y ella  agarrant lo meu bastó, deu-se a chuchar. Céu infinito, eu te alcanço e me abandono em teus braços e soluço e choro e grito e louvo e morro. 
                               Um grito, um tiro, uma queda. Ninguém viu, ninguém vê. Ouve-se, tremendo. Quem? Horas não passam. Eternidade. O som infinito do carro de boi.

DO HAVRE AO FIM DO MUNDO

                              Juro. Horas pensando. Começar. Joyce levou dias para encontrar um palavra para o fim do Ulisses, eu, para começar.  Ele achou o yes, eu, só o não. Vinha sempre à mente quando pegava da caneta. E não era azul! Então decidi escrever diretamente no notabuque e a negativa foi pro brejo. Mau agouro, começar um diário de viagem logo com um adverbio de tanta força negativa. Seria atrair o mal. Palavras têm força, diz a neurolinguística. Madeira, toc, toc, toc. Um diário. O presente para recordação no futuro. Para se verter lágrimas ou risos e mais das vezes risos, pois o infortúnio no futuro é objeto do riso. Este relato pretende ser um diário do Havre ao Tepequém. Não me queiram mal, não será um diário como todos fazem. Dia, mês, ano e até hora. Não saberia fazer, nem teria saco, mas vou me esforçar ao máximo para que pareça um diário e todos vocês possam gozar do pra...

MEU NOME É JESUS

                              Meu nome é Jesus. Não queiram associar este título ao bordão político do barbudo Enéas. Se assim  comecei é porque faço questão de enfatizar  meu nome, hoje, por tantos, vilipendiado, usado em vão. Muito do que se faz e se diz em nome, não no é. Quero provar, mesmo que se diga, não ter eu existido historicamente, não ter tido vida material, que, ainda assim, fui, para muitos, o caminho. Até me conformo em dizerem que eu não existi, mas dizer, como Celso disse,  que eu fui gerado de  uma pulada de cerca de minha mãe, que sou filho de um tal de Tiberius Julius Abdes Pantera, soldado romano, é demais. É muita maldade. Não há mal algum em ser filho de um milico, xô, xô preconceito, chateado, tou, pela cerca. Mamãe não pulou cerca. Quem não ficaria zangado, vendo a mãe xingada? Os que negam a minha existência, nem admitem ter nascido, mas há, como Celso, os q...

O DIVINO SEBASTIÃO

                            Sempre me perguntei porque a Igreja, que se mostrava tão pudica, permitia a imagem de um santo  semi-nu, com corpo eroticamente retorcido, atravessado por flechas. Que sentido teriam tais flechas? Por quê os pintores o retratam em lascivas posições? Diz-me Irene, tu que o curaste, quem era Sebastião? Quero ver Irene dar sua risada.